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Veterinary Focus

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Alimentos para pets: como prevenir a infestação por pragas e insetos

Publicado 08/12/2023

Escrito por Maiara Ribeiro

Disponível em Français , Deutsch , Italiano , Español e English

A contaminação por insetos em alimentos para animais de estimação é um problema potencial em países tropicais; este artigo oferece uma visão geral da situação e de como os riscos podem ser minimizados.

Necrobia rufipes

Pontos-chave

Os alimentos industrializados para animais de estimação estão suscetíveis à infestação por insetos durante a fabricação e o armazenamento, a menos que protocolos adequados estejam estabelecidos para prevenir tal situação.


As áreas fundamentais para evitar infestações incluem minimizar qualquer acesso potencial aos alimentos e otimizar as instalações de armazenamento.


Introdução

Quando se considera a qualidade de um alimento para animais de estimação, a primeira coisa que vem à mente é o produto resultante da combinação de ingredientes e de como são formulados. No entanto, é importante lembrar que outros aspectos estão envolvidos, como as diversas etapas do processo de fabricação e distribuição. Manter as características organolépticas de um produto (ou seja, aspectos do alimento que criam a experiência individual por meio do olfato, visão e paladar), juntamente com seu valor nutricional, desde a fabricação e armazenamento até o momento do consumo pelo cão ou gato, é atualmente um dos maiores desafios enfrentados pela indústria de alimentos para animais de estimação. Fabricantes conceituados adotam medidas de controle de qualidade para prevenir infestações por insetos.

Quando ocorrem falhas nesse processo, tanto o responsável pelo animal quanto o próprio animal de estimação são impactados, e as queixas referentes a desvios nos padrões do produto ao abrir a embalagem do alimento para animais de estimação estão se tornando cada vez mais comuns. Em regiões mais quentes, em especial, as reclamações mais frequentes estão relacionadas a infestações por insetos. Os responsáveis pelos animais são particularmente sensíveis a esses problemas, e, embora a indústria dedique recursos substanciais para prevenir a infestação de pragas durante a fabricação 1, falhas ligadas ao controle de qualidade na última etapa da cadeia de distribuição, e como isso muitas vezes está diretamente ligado a reclamações, são amplamente reconhecidas.

Na maioria dos casos em que ocorre a contaminação por insetos, ela não tem origem na fábrica de produção, mas sim mais adiante na cadeia, geralmente durante o armazenamento em um centro de distribuição ou no ponto de venda.

Principais insetos-praga

O Necrobia rufipes, conhecido como besouro do presunto de pernas vermelhas, é a espécie de inseto que mais frequentemente infesta alimentos para animais de estimação em regiões mais quentes. Este inseto voador é comum e se alimenta de produtos ricos em proteínas 2 podendo causar danos significativos aos itens armazenados. O inseto adulto apresenta uma coloração azul-esverdeada e possui um comprimento que varia entre 3,5 e 7 mm (0,14-0,28 polegadas) (Figura 1). O ciclo de vida pode variar de 36 a 150 dias ou mais, dependendo da temperatura e da disponibilidade de alimentos 3 seguindo uma metamorfose completa, que inclui as fases de ovo, larva, pupa e, finalmente, o inseto adulto (Figura 2). A forma larval procura ambientes escuros, e ao final dessa fase, busca um local escuro e seco para construir o casulo, podendo completá-lo em 24 horas (Figura 3). O casulo pupal é formado preenchendo os lados abertos da fenda escolhida pela larva com uma substância branca produzida na boca da larva, apresentando-se na forma de gotículas espumosas 4. Não se tem certeza se o inseto adulto N. rufipes consegue penetrar em embalagens de alimentos fechadas, ou seja, não danificadas 5 (Figura 4).

Outros insetos frequentemente encontrados em alimentos armazenados incluem Lasioderma serricorne (o besouro do cigarro), Tribolium castaneum (o besouro vermelho da farinha) e Plodia interpunctella (a traça indiana da farinha).

 
Necrobia rufipes, besouro de presunto de patas vermelhas

Figura 1. Necrobia rufipes, conhecido como o besouro do presunto de patas vermelhas, é um inseto alado comumente encontrado em países tropicais, capaz de contaminar alimentos para animais de estimação quando apresentada a oportunidade. O adulto tem uma medida de 3,5 a 7 mm (0,14 a 0,28 polegadas) de comprimento.
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Fatores que afetam a infestação

Os quatro elementos essenciais para possibilitar o desenvolvimento de uma infestação por insetos são acesso, esconderijo (ou área de armazenamento), alimento e água. Contudo, uma vez que a produção e o armazenamento de alimentos para cães e gatos implicam na presença tanto de água quanto de alimento, é crucial concentrar-se na prevenção do acesso potencial do inseto ao alimento e esconderijo para evitar a contaminação. Essa abordagem deve ser implementada ao longo de toda a cadeia de produção e distribuição; se o inseto não puder encontrar nem alimento nem esconderijo, ele não permanecerá próximo ao produto armazenado.

No que diz respeito ao acesso, o desafio é garantir a integridade dos produtos armazenados. Para se atingir esse objetivo, as embalagens de alimentos para animais de estimação devem ser protegidas da exposição direta à luz solar e ao calor. Os produtos não devem ser armazenados diretamente no chão ou em paletes de madeira e devem ser manuseados adequadamente. Isso inclui evitar puxar as embalagens pelas soldas e garantir que as embalagens não sejam perfuradas. Além disso, quaisquer itens na área de armazenamento que não tenham utilidade, como materiais plásticos, caixas de papelão ou paletes antigos, devem ser retirados.

Infestação de Necrobia rufipes em um alimento para animais de estimação - fase larval.

Figura 2. Infestação por Necrobia rufipes em um alimento industrializado para animais de estimação - estágio larval (circulado).
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Como ocorrem as infestações

Como mencionado anteriormente, a ausência de práticas adequadas de armazenamento e manipulação de produtos representa um fator de risco para infestações quando insetos estão presentes no ambiente. Grandes volumes de estoque e uma baixa rotatividade de mercadorias podem propiciar infestações, e embora estas possam ocorrer em qualquer estágio da cadeia de produção, é mais provável que se manifestem no ponto de venda.

Adicionalmente, as condições climáticas e sazonais exercem um impacto significativo, especialmente em países tropicais e durante as estações mais quentes e úmidas, criando um ambiente propício para infestações significativas devido às elevadas temperaturas e níveis de umidade.

Pupa utilizando papelão como abrigo.

Figura 3. Pupa utilizando papelão como abrigo.
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Os prejuízos à saúde dos animais de estimação e o papel do médico-veterinário

A ingestão de um inseto adulto pode resultar em efeitos comparáveis aos da ingestão de um corpo estranho, mas é necessário levar em consideração o tamanho do animal e o número de larvas/insetos consumidos. É provavelmente mais importante lembrar que insetos e pragas podem ser vetores para a transmissão de microrganismos (como contaminação cruzada por bactérias como Salmonella spp. e E. coli) de um local infestado até o alimento para pets. Todos os envolvidos em cada etapa do processo têm, portanto, uma responsabilidade significativa em garantir que o risco de infestação seja minimizado. Isso inclui o médico-veterinário, pois frequentemente orienta o tutor durante discussões sobre alimentos para animais de estimação, especialmente se um produto for encontrado contaminado por insetos.

É imprescindível que uma empresa especializada em controle de pragas realize uma gestão adequada durante a fabricação, transporte e armazenamento de alimentos para animais de estimação. A empresa deve avaliar os riscos de infestação e elaborar um programa com visitas em uma frequência apropriada para facilitar o monitoramento e controle de pragas. A implementação conjunta de todas essas sugestões certamente levará a resultados positivos.

Maiara Ribeiro

A ausência de procedimentos adequados de armazenamento e manuseio dos produtos representa um fator de risco para infestações quando há a presença de insetos no ambiente.

Maiara Ribeiro

Também é crucial que o médico-veterinário seja proativo e forneça orientações aos tutores sobre como reduzir qualquer risco de contaminação por insetos, conforme indicado abaixo:

  • Ao adquirir o produto na loja, certifique-se de que a embalagem está íntegra, sem furos ou outros danos - esteja atento à presença de insetos onde o produto é armazenado e exibido para venda;
  • Guarde o alimento em casa em um local seco, ventilado e em recipientes apropriados. Evite posicionar o alimento no chão ou próximo às paredes;
  • Ao servir o alimento ao seu animal de estimação, coloque a quantidade calculada no comedouro e evite derramamentos no chão;
  • Retire o alimento se o animal não consumir toda a quantidade oferecida;
  • Faça a higienização regular do comedouro e do recipiente de água do animal.

Quando pragas são encontradas dentro da embalagem de alimentos, é recomendável instruir o tutor a entrar em contato com o departamento de consumidores da empresa fabricante, para que instruções apropriadas para descarte e possível troca possam ser fornecidas. Isso também pode ajudar a identificar em qual ponto da cadeia ocorreu a contaminação, contribuindo assim para a identificação de áreas de melhoria.

Infestação de Necrobia rufipes em um alimento industrializado para animais de estimação - estágio adulto.

Figura 4. Infestação de Necrobia rufipes em um alimento industrializado para animais de estimação - estágio adulto.
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Considerações finais

A responsabilidade de manter a qualidade de um alimento para animais de estimação é distribuída ao longo de toda a cadeia de abastecimento, e como médicos-veterinários, temos a oportunidade de transformar a narrativa atual ao compartilhar esse conhecimento com os tutores, contribuindo diretamente para a construção de um mundo melhor para os pets.

Referências

  1. https://www.petfoodinstitute.org/blog/insects-want-steps-prevent-infestation-ingredient-bowl/

  2. Mahbub Hasan M, Athanassiou CG, Schilling MW, et al. Biology and management of the red-legged ham beetle, Necrobia rufipes De Geer (Coleoptera: Cleridae). J. Stored Prod. Res. 2020;88;101635.

  3. Lambkin TA, Khatoon N., 1990. Culture methods for Necrobia rufipes (De Geer) and Dermestes maculatus De Geer (Coleoptera: Cleridae and Dermestidae). J. Stored Prod. Res. 1990;26;59-60. 

  4. Simmons P, Ellington GW. The ham beetle, Necrobia rufipes (De Geer). Govern. Print. Office, 1925.

  5. Savoldelli S, Jucker C, Peri E, et al. Necrobia rufipes (De Geer) infestation in pet food packaging and setup of a monitoring trap. Insects 2020;11(9);623.

Maiara Ribeiro

Maiara Ribeiro

Dra. Ribeiro possui graduação em medicina veterinária e um MBA em Gestão Avançada de Pessoas. Leia mais