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Veterinary Focus

Número da edição 32.1 Outros conteúdos científicos

Vacinações e imunidade dos filhotes felinos

Publicado 08/08/2022

Escrito por Kelly A. St. Denis

Disponível em Français , Deutsch , Italiano , Español e English

Garantir que os filhotes felinos sejam submetidos a um programa de vacinação ideal enquanto se criam experiências positivas para os pacientes na clínica veterinária pode ser uma situação em que todos saem ganhando, como descreve Kelly St. Denis.

Kittens can be distracted with food before being vaccinating at or below the elbow

Pontos-chave

As vacinas podem e devem começar a partir de 6 semanas de vida durante o período de socialização do filhote felino, conferindo à equipe veterinária a oportunidade de lhe proporcionar experiências positivas precocemente.


A imunização contra o vírus da leucemia felina é uma parte importante do protocolo de vacinação juvenil, independentemente do estilo de vida pretendido para o filhote felino.


As consultas de reforço ajudam a garantir a imunidade, ao mesmo tempo em que oferecem oportunidades para interações Cat Friendly e a chance de ajudar os tutores a compreenderem as necessidades de seus gatos.


As consultas nutricionais do “primeiro aniversário” promovem a boa saúde, fortalecem o vínculo veterinário-cliente-paciente e garantem que os pacientes retornem para as consultas anuais.


Introdução

A vacinação em felinos tem experimentado mudanças consideráveis nas últimas décadas. Embora os agentes infecciosos contra os quais vacinamos os filhotes felinos não tenham mudado muito, em outros contextos houve inúmeras mudanças. Houve avanços em nosso conhecimento e compreensão não só sobre alguns desses agentes infecciosos, mas também sobre o papel da vacinação em sua prevenção; houve muitas mudanças nas recomendações quanto ao momento oportuno, à idade e à frequência das vacinações, bem como em relação às vacinas de reforço; temos conhecimento adicional sobre a imunidade de origem materna e seu impacto na imunidade; o modelo científico das vacinas felinas disponíveis mudou drasticamente; e os locais de injeção aprovados e recomendados foram modificados. Além disso, a maneira como interagimos com os nossos pacientes felinos foi revolucionada pela adaptação dos princípios Cat Friendly. Essas mudanças tornam a implementação da vacinação na espécie felina mais desafiadora, porém mais recompensadora do que nunca. Elas também afetam todas as fases da vida do gato doméstico, estabelecendo as bases para a imunização e as consultas cat-friendly no primeiro ano de vida. O presente artigo revisará os protocolos de vacinação e sua implementação para os gatos domésticos jovens, principalmente do ponto de vista norte-americano, e o leitor é incentivado a buscar mais detalhes para todos os estágios da vida nas diretrizes recentemente atualizadas da AAHA/AAFP* 1.

* AAHA: American Animal Hospital Association; AAFP: American Association of Feline Practitioners

Imunidade derivada da mãe

A imunidade materna, na forma de anticorpos derivados da mãe, é transferida passivamente da gata imune para os filhotes durante a lactação. A transferência transplacentária de anticorpos não é significativa na espécie felina 2. A disponibilidade de imunoglobulinas IgA e IgG para o recém-nascido é influenciada pela concentração das proteínas no colostro, pelo volume ingerido e pela capacidade do intestino neonatal de absorver a proteína, todos altamente dependentes do tempo. A concentração de imunoglobulina é mais alta no colostro, e seus níveis diminuem rapidamente 3 dias após o parto 3. O neonato absorve as imunoglobulinas principalmente nas primeiras 24 horas de vida, embora evidências sugiram que a absorção diminua drasticamente somente depois de 16 horas 3Os filhotes felinos que não ingerem colostro suficiente durante as primeiras 24 horas pós-parto correm o risco de falha na transferência passiva, aumentando o potencial de doenças infecciosas durante um período em que o sistema imunológico não está desenvolvido.

Os anticorpos derivados da mãe persistem no filhote felino por períodos de tempo variáveis, dependendo do título humoral da gata e da quantidade de imunoglobulinas absorvidas pelo neonato. Um nadir (i. e., o ponto mais baixo) pode ser alcançado já com 3 a 4 semanas de vida 2, embora alguns filhotes felinos mantenham altos níveis após 16 semanas 4. Embora os anticorpos derivados da mãe confiram proteção no neonato imunocompetente, isso é descrito como uma das razões mais comuns para a falha vacinal 1. Por meio de um mecanismo de feedback negativo, os anticorpos séricos derivados da mãe podem interferir na produção neonatal de imunoglobulinas, e sua presença também pode levar à neutralização dos antígenos administrados pela vacina, limitando assim a resposta vacinal. Portanto, existe uma “janela de suscetibilidade” entre a perda de anticorpos derivados da mãe e o desenvolvimento da imunidade individual, quando os níveis desses anticorpos podem ser altos o bastante para interferir no desenvolvimento da imunidade dependente da vacina, mas insuficientes para proteger contra infecções naturais 1. Essa janela de suscetibilidade deve ser considerada ao desenvolver protocolos de vacinação para filhotes felinos. Por essa razão, as vacinas contra rinotraqueíte viral/calicivírus/panleucopenia felinas (FVRCP [sigla em inglês]) têm maior probabilidade de sucesso se administradas a cada 2-4 semanas até que o filhote felino tenha pelo menos 16-20 semanas de vida 1. O intervalo exato entre as vacinações de reforço deve seguir as diretrizes do fabricante, mas o ideal é administrar um último reforço 3 a 4 semanas após o declínio dos anticorpos derivados da mãe abaixo dos níveis de interferência, o que pode variar entre as ninhadas, entre os filhotes felinos dentro das ninhadas e com a doença infecciosa contra a qual eles estão sendo vacinados. As diretrizes recentes 1,5 recomendam a substituição do reforço de 1 ano contra FVRCP por um reforço de 6 meses contra as mesmas doenças.

Kelly A. St. Denis

Existe uma “janela de suscetibilidade” entre a perda de anticorpos derivados da mãe e o desenvolvimento da imunidade individual, quando os níveis desses anticorpos podem ser altos o bastante para interferir no desenvolvimento da imunidade dependente da vacina, mas insuficientes para proteger contra infecções naturais.

Kelly A. St. Denis

Conceitos de vacina revisados – modelo de vacina

Existem inúmeras vacinas comerciais disponíveis em todo o mundo direcionadas a vários agentes infecciosos felinos. A Força-Tarefa de Vacinação Felina da AAHA/AAFP de 2020 classificou as vacinas contra esses agentes como “essenciais” ou “não essenciais”, com base no risco relativo e na eficácia e segurança da vacina (Tabela 1). As vacinas são elaboradas utilizando uma variedade de abordagens, incluindo vacinas inativadas (mortas), vivas modificadas (atenuadas) e vacinas de subunidades recombinantes geneticamente modificadas. Cada modelo se baseia em diferentes estratégias para induzir a imunidade, mas a seleção depende de muitos fatores, incluindo o próprio agente infeccioso, a tecnologia de aplicação da vacina, a resposta imune do hospedeiro e os possíveis efeitos colaterais. Uma compreensão básica dessas diferenças, bem como o conhecimento de qual modelo de vacina está sendo administrado, são fundamentais para entender os impactos no paciente. Tais impactos incluem o tipo de imunidade e a eficácia da vacina, assim como seus possíveis eventos adversos.

Tabela 1. Recomendações de vacinação para filhotes de gatos. Os protocolos de vacinação começam a partir de 4-6 semanas, com reforços administrados em intervalos de 3 a 4 semanas até 16 ou 20 semanas de vida contra FVRCP e 3 a 4 semanas após a vacinação inicial contra FeLV e FIV.

Vacina Primeira vacina e reforços (semanas de vida)
FHV*-1 +FCV (IN)

4 semanas + a cada 3-4 semanas até 16-20 semanas

FHV-1 + FPV** + FCV*** (SC)

6 semanas + reforço a cada 3-4 semanas até 16-20 semanas

FeLV (SC)

8 semanas + 1 reforço a cada 3-4 semanas

Raiva (SC)

12-16 semanas + reforço em 1 ano

FIV (SC)

8 semanas + 1 reforço a cada 3-4 semanas

Legenda: Primeiras linhas: vacinas essenciais. Última linha: vacina não essencial; IN: intranasal; SC: subcutâneo
 *FHV = Herpes-vírus Felino, **FPV = Vírus da Panleucopenia Felina, ***FCV = Calicivírus Felino

 

As vacinas mortas contêm partículas virais inativadas incapazes de estabelecer uma infecção ativa no paciente. A estimulação adequada da resposta imune muitas vezes requer ingredientes vacinais adicionais, o que pode incluir o uso de adjuvantes. Essas substâncias reforçam a inflamação no local da injeção, estimulam o componente inato do sistema imunológico e desencadeiam as respostas imunes necessárias. Os compostos utilizados em produtos vacinais incluem Adjuvante Completo de Freund (composto de óleo mineral + emulsionante + Mycobacterium spp.), sais de alumínio, lipídios em emulsões aquosas (i. e., à base de água), adjuvantes à base de saponina, e ligantes (oligonucleotídeos). A resposta à vacinação com uma vacina morta é principalmente de natureza humoral e, em geral, produz uma resposta imune mais débil (fraca), em comparação com outras tecnologias; nesse caso, a imunidade gerada pelas vacinas mortas é menos duradoura. Assim, é provável que sejam necessárias vacinas de reforço mais frequentes.

As vacinas de vírus vivo modificado (atenuado) contêm partículas virais parcialmente viáveis, com uma capacidade reduzida de infectar as células do hospedeiro. Essa atividade viral atenuada gera uma resposta imune que mimetiza a proteção contra infecções naturais e envolve imunidade tanto humoral (mediada por anticorpos) como mediada por células sem induzir a doença real. A resposta ao vírus vivo modificado é geralmente mais rápida, em comparação às vacinas mortas. Na ausência de anticorpos derivados da mãe, apenas uma dose de vacina pode ser suficiente para conferir proteção.

As vacinas recombinantes mais comuns em medicina veterinária contêm um gene ou genes que codifica(m) a(s) proteína(s) do agente infeccioso. Esse(s) gene(s) se une(m) por junção (splicing) ao material genético de um vírus de uma espécie não relacionada. Por exemplo, o gene do antígeno de superfície da raiva foi inserido no vírus canarypox para criar uma vacina recombinante contra a raiva. O vetor vacinal não é capaz de causar doença na espécie felina, mas permite a apresentação de um antígeno viral específico ao sistema imunológico.


Conceitos de vacina revisados – eventos adversos

A administração de vacinas é uma prática diária na medicina veterinária e, geralmente, é um procedimento tranquilo (i. e., sem intercorrências) e de baixo risco. À medida que o sistema imunológico reconhece e responde à vacina, podem ocorrer efeitos colaterais secundários. Essa resposta imune normal inclui a liberação de citocinas que, ao mimetizar a resposta à infecção, causarão efeitos sistêmicos, como febre, artralgia (dor nas articulações) e mal-estar geral. Um filhote felino acometido pode se beneficiar de tratamento sintomático para reduzir quaisquer efeitos nocivos, mas a expressão “reação à vacina” aplicada a esses tipos de efeitos colaterais naturais é desaconselhável e pode levar à desconfiança das vacinas por parte do tutor. A explicação das respostas naturais previstas às vacinas e dos possíveis efeitos colaterais relacionados ajudará a alertar o tutor sobre eles caso ocorram, facilitará o tratamento precoce e evitará a desconfiança na inoculação. 

Com menos frequência, os pacientes felinos podem apresentar eventos adversos à vacina, o que pode incluir febre prolongada, vômitos, diarreia e inapetência ou anorexia. Este último pode resultar de efeitos colaterais não tratados, conforme descrito anteriormente. Na espécie felina, é raro observar reações graves e agudas, como vômitos de início súbito, diarreia, taquicardia, taquipneia, desorientação e/ou colapso. Se tais reações agudas ocorrerem, isso geralmente acontece antes da saída da clínica veterinária; no entanto, os tutores devem estar cientes do potencial, para que o paciente possa retornar imediatamente e receber um possível atendimento de emergência.

Os sarcomas no local de injeção da vacina são a causa mais relatada de sarcoma no local da injeção em felinos 1. A taxa de ocorrência é baixa e varia em termos geográficos, mas o desenvolvimento do sarcoma no local da injeção em felinos é algo complexo e pouco compreendido. Um componente inflamatório no local da injeção pode desempenhar um papel, embora a evidência direta de causa e efeito não seja clara. Pode haver um papel envolvendo mutações genéticas, incluindo aquelas em genes supressores tumorais e oncogenes. Foi formulada a hipótese de que a presença de adjuvantes inflamatórios em certos tipos de vacinas seja um fator que contribui para o surgimento desses sarcomas. Os dados causais permanecem inconclusivos, embora relatos anedóticos (i. e., sem comprovação científica) sugiram uma incidência reduzida de sarcomas no local de injeção da vacina com o uso de vacinas sem adjuvantes. Como os sarcomas no local da injeção em felinos são neoplasias altamente invasivas que podem ser muito difíceis de remover por meio cirúrgico, é recomendável o monitoramento rigoroso de qualquer tumefação (inchaço) ou massa suspeita em um local de injeção de vacina conhecido ou suspeito. O protocolo 3-2-1 fornece orientações sobre como lidar com isso; uma biopsia incisional ou em cunha deve ser obtida de qualquer reação no local da injeção que (a) persista por mais de 3 meses, (b) seja maior que 2 cm e/ou (c) aumente de tamanho dentro de 1 mês após a injeção 6. As biopsias excisionais não são apropriadas, pois é muito provável que as margens passem despercebidas, permitindo que o sarcoma no local da injeção em felinos localmente invasivo continue a se espalhar e dificultando a futura remoção. A excisão cirúrgica requer um diagnóstico específico e uma abordagem planejada, incluindo dois planos fasciais. Com a falta de pleno entendimento da etiologia dos sarcomas no local de injeção da vacina e considerando o caráter agressivo da cirurgia, todas as vacinas felinas devem ser administradas abaixo do cotovelo ou do joelho ou, então, na extremidade distal da cauda (Figura 1).

Recommended vaccination sites

Figura 1. Os locais de vacinação recomendados estão demonstrados em verde; já os locais que são frequentemente utilizados, mas que devem ser evitados, estão ilustrados em vermelho. O local de injeção da vacina precisa ser registrado no prontuário do paciente.

Créditos: de AAHA/AAFP guidelines/Redesenhado por Sandrine Fontègne

Conceitos de vacina revisados – protocolos de vacinação para filhotes felinos

A elaboração de um plano de vacinação para um filhote felino começa considerando as necessidades de cada animal individualmente. Os aspectos a serem considerados incluem fatores de risco relacionados com o ambiente, fatores epidemiológicos, disponibilidade das vacinas e fatores associados ao estilo de vida. Um tutor pode ter objetivos muito específicos para o futuro estilo de vida de seu filhote felino; isso pode incluir o status como um gato único e exclusivamente indoor (i. e., de vida interior), o convívio em um lar com vários gatos com acesso constante a ambientes externos ou algum ponto entre esses dois extremos. Seja qual for o plano, o estilo de vida de um gato pode mudar no futuro; portanto, os protocolos de vacinação devem ser elaborados assumindo que a exposição a outros gatos é uma probabilidade. Mesmo quando um tutor é firme acerca de seus objetivos quanto ao estilo de vida interior de seu filhote, deve-se admitir que os gatos indoors não estão isentos de riscos quando se trata de doenças infecciosas.

O desenvolvimento de um plano de vacinação também deve considerar se uma vacina específica é classificada como essencial ou não essencial. As vacinas essenciais são aquelas recomendadas para todos os filhotes felinos, independentemente do estilo de vida, inclusive aqueles com histórico de vacinação desconhecido, e compreendem aquelas que protegem contra doenças zoonóticas, como a raiva. Tais vacinas devem oferecer boa proteção contra doenças prevalentes de morbidade e mortalidade significativas conhecidas. A Força-Tarefa da AAHA/AAFP designou o herpes-vírus felino tipo 1 (FHV-1), o calicivírus felino (FCV), o vírus da panleucopenia felina (FPV), o vírus da raiva e o vírus da leucemia felina (FeLV) como os principais agentes infecciosos contra os quais as vacinas (no caso, essenciais) devem ser administradas a todos os filhotes felinos (Tabela 1). As vacinas não essenciais contra determinados agentes infecciosos são aquelas consideradas opcionais, com base no risco de exposição e na distribuição geográfica do agente, bem como no estilo de vida atual e possível estilo de vida futuro do paciente. As vacinas não essenciais incluem o vírus da leucemia felina (para gatos com mais de 1 ano) e as bactérias Chlamydia felis e Bordetella bronchiseptica. As vacinas para doenças de baixa importância clínica ou responsivas ao tratamento, e aquelas que apresentam mínima ou nenhuma evidência de eficácia a campo ou que possuem um risco relativamente maior de eventos adversos, são designadas como “não recomendadas”. As vacinas atualmente não recomendadas pela força-tarefa incluem o Vírus da Peritonite Infecciosa Felina (FIPV).

Com exceção da vacina intranasal contra FHV-1/FCV (que pode ser iniciada a partir de 4 semanas de vida), a vacinação deve começar entre 6 e 8 semanas em todos os filhotes felinos domésticos. Esse início precoce facilita uma maior interação com a equipe veterinária durante o período de socialização do filhote. A vacinação inicial contra FVRCP deve ser administrada durante essa primeira consulta. A Força-Tarefa da AAHA/AAFP recomenda a administração de reforços contra FVRCP a cada 3 a 4 semanas até 16 a 20 semanas de vida, com um reforço adicional contra FVRCP aos 6 meses quando os anticorpos derivados da mãe declinaram, o que substitui o primeiro reforço anual. A vacina intranasal contra FHV-1/FCV pode começar com 4 a 6 semanas de vida, seguida de vacinações de reforço a cada 3 a 4 semanas até 16 a 20 semanas de vida. A vacinação contra FeLV é considerada uma vacinação essencial para filhotes felinos domésticos e deve começar com 8 semanas de vida, com uma segunda dose administrada 3 a 4 semanas depois, seguida de um reforço com 1 ano de idade (Tabela 1).

A raiva, uma zoonose com altas taxas de mortalidade, é um importante problema de saúde pública em todo o mundo. A vacinação obrigatória de pets contra a raiva é comum em muitas comunidades, e a equipe veterinária terá de consultar as leis locais para fazer recomendações de vacinação com maior precisão. O momento da vacinação contra a raiva no filhote felino deve se basear nas instruções do fabricante, iniciando muitas vezes não antes de 12 semanas e mais comumente com 16 semanas de vida. Um reforço deve ser administrado com 1 ano de idade. Após esse período, as vacinas legalmente aprovadas para uso prolongado a cada 3 anos podem ser administradas nesse intervalo. Para todos os outros produtos, é recomendável a vacinação anual.

 

Testes de retrovírus e vacinação contra esses agentes

O teste de retrovírus é recomendável para todos os filhotes felinos recém-adquiridos 7, embora testes adicionais de FeLV e FIV sejam recomendados 30 e 60 dias, respectivamente, após o primeiro teste. Para facilitar o uso, a segunda série de testes pode ser realizada em 60 dias ou mais. O status retroviral dos filhotes felinos deve ser conhecido, com pelo menos um teste negativo confirmado antes da vacinação contra FeLV ou FIV. A vacinação contra o FeLV não interfere nos métodos de teste-padrão atuais, que medem o antígeno viral ou o RNA viral. O teste-padrão para FIV envolve a medição de anticorpos direcionados contra esse vírus e, por essa razão, a vacina gerará resultados falso-positivos. Esta é uma consideração importante em certas regiões geográficas, como a Austrália, onde as vacinas contra o FIV são comumente administradas, tendo em vista que os anticorpos gerados por essas vacinas podem persistir por mais de 7 anos 8. A Força-Tarefa de Teste e Manejo de Retrovírus Felinos de 2020 recomenda testes de acompanhamento para todos os casos positivos de FIV e FeLV, utilizando um teste ELISA de um fabricante diferente ou um tipo de teste diferente 7.

Os filhotes felinos apresentam maior risco de infecção por FeLV após exposição, mas os riscos diminuem com o avanço da idade 7 e, portanto, conforme descrito anteriormente, a vacinação contra FeLV é recomendada para todos os filhotes, seja qual for o seu estilo de vida. Com base nos estudos atuais, não há evidências suficientes para demonstrar que a vacinação previne todos os desfechos da infecção pelo FeLV, porém há proteção suficiente para justificar o uso da vacina 7. Apesar das suposições contrárias, um estudo australiano de 2019 mostrou que a ameaça de FeLV na população geral de gatos nesse país ainda era alta e justificava a realização de testes contínuos, o emprego da vacinação e o manejo adequado de populações potencial ou sabidamente infectadas 9.

A vacinação contra FIV tem uma disponibilidade limitada em todo o mundo; no entanto, em regiões como a Austrália, onde o FIV tem maior prevalência, a vacina ainda está disponível. Nessas áreas, recomenda-se que os filhotes felinos com maior risco de exposição ao FIV (estilo de vida, zona geográfica) recebam a série de vacinação contra FIV, sempre que possível; isso deve começar com 8 semanas de vida, com uma segunda dose 3-4 semanas depois e reforços anuais a partir de então. O status retroviral deve ser confirmado como negativo antes da vacinação, pois podem ocorrer resultados falso-positivos já em algumas semanas após a primeira dose da vacina. As Diretrizes de 2020 fornecem informações adicionais sobre recomendações de testes e vacinas com base no estilo de vida e na localização geográfica 7.

Warm blankets sprayed with pheromone will calm feline patients during their clinic visit

Figura 2. Cobertores quentes borrifados com feromônio acalmarão os pacientes felinos durante sua visita à clínica. 

Créditos: Kelly A. St. Denis

Nutrição para toda a vida

A nutrição fornece os blocos de construção para um crescimento normal e saudável, além de preparar o terreno para uma vida adulta sadia. A orientação do profissional veterinário é valiosa nesse quesito, aperfeiçoando a relação veterinário-cliente e gerando confiança para futuras visitas, inclusive as consultas de vacinação. Mesmo antes da primeira consulta na clínica, a equipe veterinária pode fornecer orientações sobre a alimentação dos filhotes felinos na transição do leite materno para os alimentos sólidos. Para desenvolver experiências com a textura dos alimentos, o ideal é expor os filhotes a alimentos tanto úmidos (enlatados) como sólidos, em uma variedade de texturas e sabores, principalmente durante o período de socialização. Isso facilitará a aceitação de quaisquer mudanças alimentares necessárias durante a vida adulta. Ao escolher um alimento, formulações balanceadas e de alta qualidade para filhotes felinos são ideais, de preferência de um fabricante que conte com nutricionistas veterinários na equipe e com altos padrões de controle de qualidade para a entrada de ingredientes e a saída dos produtos finais, demonstrando um compromisso com dietas seguras e de alto nível. À medida que os filhotes felinos passam para a idade adulta, uma “consulta no primeiro aniversário” com um dos membros da equipe veterinária para avaliar o peso corporal e o escore de condição corporal ajudará a manter esses filhotes no caminho certo. Essa consulta é uma oportunidade perfeita para auxiliar o tutor na transição do pet para a alimentação de adulto, promovendo uma melhor compreensão do controle de peso e aperfeiçoando o vínculo veterinário-cliente-paciente. Também pode representar uma oportunidade de garantir que todas as vacinas de reforço sejam atualizadas ou de marcar consultas com antecedência para atender às próximas necessidades de vacinas.

 

A consulta cat friendly: criando laços para toda a vida

Em 2012, a International Society of Feline Medicine (ISFM, Sociedade Internacional de Medicina Felina) e a American Association of Feline Practitioners (AAFP, Associação Norte-americana de Clínicos de Felinos) desenvolveram os programas Cat Friendly Clinic® e Cat Friendly Practice®, respectivamente. Desde então, o atendimento “Cat-Friendly” se tornou um princípio bem estabelecido na medicina felina em todo o mundo, e o conceito se aplica às consultas tanto de filhotes como de qualquer outra faixa etária. O período de socialização do gato doméstico começa por volta de 2 a 3 semanas de vida e termina em torno de 9 a 10 semanas de vida 10, e este é um período crucial para criar boas experiências em relação à consulta veterinária. Com uma janela de oportunidade tão curta, é essencial que um filhote felino tenha uma experiência positiva durante uma visita à clínica. Com o início dos protocolos de vacinação a partir de 4-6 semanas de vida, a equipe veterinária talvez tenha apenas uma a três oportunidades para criar uma experiência Cat-Friendly positiva. As visitas veterinárias devem incluir interações Cat-Friendly, com bastante reforço positivo, realizadas com o mínimo de manuseio restritivo ou contenção, criando condições para o conforto do paciente e do tutor nas futuras visitas veterinárias e fortalecendo a relação veterinário-cliente-paciente. A criação de atendimento Cat-Friendly pode começar com pequenas mudanças na clínica 11e tanto a ISFM como a AAFP oferecem programas para ajudar nisso. Os indivíduos que trabalham em uma clínica também podem obter a “Certificação Cat Friendly” através da AAFP.

Até mesmo pequenas mudanças farão a diferença na experiência do filhote e do tutor na clínica, bem como da equipe veterinária (Tabela 2). Como os filhotes são agitados e brincalhões, o médico-veterinário terá de ser muito criativo na interação com eles para concluir um exame físico e administrar as vacinas e outros medicamentos necessários. A contenção forçada e o manuseio agressivo apenas para “fazer o trabalho” ou porque o “filhote não coopera” farão com que todos fracassem em futuras consultas. A impaciência humana pode contribuir para o assim-chamado comportamento “irrequieto”. O caminho a seguir é adotar uma abordagem focada no paciente – abordagem esta que busque métodos para deixar o filhote à vontade, distraindo-o com alimentos, brinquedos, afagos na cabeça e outras formas aceitas de reforço positivo (Figura 3). Com distrações adequadas, torna-se possível a administração de vacinas nos locais de injeção recomendados (Figura 4).

Tabela 2. Sugestões para os princípios de atendimento Cat-Friendly, aplicados a cada etapa da consulta veterinária, começando pela casa do tutor. Trata-se de elementos essenciais para proporcionar experiências positivas e gratificantes na clínica nos primeiros estágios de vida do gato.

Local Sugestões
Em casa
• Escolher a caixa de transporte certa para o gato, incluindo uma tampa facilmente removível
• Adestrar o gato para usar a caixa de transporte
• Preparar o gato e a caixa para viagens
Adotar práticas seguras de trajetos em automóveis
Sala de recepção
• Ter sala de espera reservada para gatos ou horários de consulta exclusivos para essa espécie
• Considerar a entrada do gato e do tutor na sala de exame imediatamente após a chegada
• Usar mesas elevadas para a colocação das caixas de transporte
• Empregar cobertores borrifados com feromônios para cobrir as caixas
• Minimizar os tempos de espera
Sala de exame
• Fazer consultas mais prolongadas: > 30 minutos
• Colocar a caixa no chão e abrir a porta dela
• Permitir que o gato saia da caixa por conta própria
• Se o paciente não sair voluntariamente da caixa, remova ou abra a tampa dessa caixa e delicadamente tire o paciente. Evite puxar, sacudir ou outras manobras agressivas que assustam o gato
• Utilizar cobertores quentes borrifados com feromônios para colocar sob e sobre o gato durante o exame (Figura 2)
Administrar ansiolíticos e sedativos para o exame de pacientes muito assustados
Aplicação de injeções e coleta de amostras de sangue
• Lançar mão de distrações como brinquedos e alimentos, sempre que possível
• Considerar o uso de ansiolíticos, analgésicos e/ou sedativos
Eliminar métodos de contenção, incluindo as práticas de preensão pelo cangote, imobilização, amarração dos membros e focinheiras (mordaças)
It is important to put kittens at ease in the clinic

Figura 3. É importante deixar os filhotes felinos à vontade na clínica, utilizando métodos de distração como alimentos, brinquedos, afagos na cabeça e outras formas aceitas de reforço positivo.

Credit: Kelly A. St. Denis

Kittens can be distracted with food before being vaccinating at or below the elbow

Figura 4. Os filhotes felinos podem ser distraídos com alimentos antes de serem vacinados no cotovelo ou abaixo dele.

Credit: Ewan McNeill

Considerações finais

As vacinas dos filhotes felinos são essenciais para garantir a imunidade adequada a doenças infecciosas prevalentes e potencialmente prejudiciais. Elas são um dos principais elementos da saúde preventiva geral desses filhotes, mas de igual importância, pois oferecem oportunidades de interação durante as quais a equipe veterinária pode criar condições para experiências afirmativas e futuras interações positivas. O ato de empregar os princípios Cat-Friendly, ao mesmo tempo em que se previnem as doenças por meio de vacinação apropriada com base nas necessidades do paciente, estabelece as bases para o futuro bem-estar felino.

References

  1. Stone AE, Brummet GO, Carozza EM, et al. 2020 AAHA/AAFP Feline Vaccination Guidelines. J. Feline Med. Surg. 2020;22(9):813-830.

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  3. Claus MA, Levy JK, MacDonald K, et al. Immunoglobulin concentrations in feline colostrum and milk, and the requirement of colostrum for passive transfer of immunity to neonatal kittens. J. Feline Med. Surg. 2006;8(3):184-191.

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  9. Westman M, Norris J, Malik R, et al. The diagnosis of Feline Leukaemia Virus (FeLV) infection in owned and group-housed rescue cats in Australia. Viruses 2019;11(6):503.

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Kelly A. St. Denis

Kelly A. St. Denis

A Dra. St. Denis estudou para seu Bacharelado em Biologia Molecular e Genética na University of Guelph (Universidade de Guelph) e se qualificou em 1992 antes de fazer Mestrado em Imunologia pela University of Toronto (Universidade de Toronto) em 1994. Leia mais

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Lidando com o neonato canino doente

Como a “Síndrome do Definhamento do Neonato” é bem reconhecida na clínica veterinária, o presente artigo fornece uma abordagem prática para o problema.

por Sylvie Chastant-Maillard

Número da edição 32.1 Publicado 08/08/2022

Uso de antimicrobianos em filhotes de cães e gatos

Como devemos abordar a problemática escolha de antibiótico em filhotes de cães e de gatos? J. Scott Weese oferece um guia prático para esse cenário muito comum na clínica de pequenos animais.

por J. Scott Weese